Durante três dias a
ilha estava inquieta, durante três dias ele viu o mar recuar e retornar, foram
três dias de inércia. Desde o dia que decidiu se aventurar em meio a uma ilha
qualquer, Fiori não imaginava o quanto podia ser assustador ficar sozinho com as
estrelas, ao perceber que estava sozinho e perdido, Fiori se desesperou a tal
ponto, que entrou em estado de choque, talvez por ele achar que todo seu plano
de se isolar na ilha bem fundado. Se sentou de baixo de um coqueiro e ali
ficou, apenas se movia para beber suas últimas gotas dágua, sem sentir seu
corpo, anestesiado pelo pavor de estar sozinho.
Em meio a seus pensamentos se
encontrava seu ego sepultado pela tragédia de falhar em saber se isolar de todo
resto sem sentir-se ameaçado pela natureza de sua escolha. Isso acarretava na
falta de força de vontade de sair daquele estado. Sentado, sem vontade de
levantar, sem forças para se mover, mas estava na hora de fazer alguma coisa,
ele tinha de fazer algo, seu corpo morria enquanto sua mente lutava para
reviver de uma morte opcional.
Em um lapso de força, ele voltou a ter vontade
de viver. Suas pernas se contraíram e em um gemido curto ele se levantou. Já
era noite e o mar havia avançado para perto dele, em sua mente ele podia achar
alguma coisa de comer na praia, alguma coisa que o mar houvesse regurgitando no
avanço da maré, ele começou a procurar a beira-mar, mas nada encontrava, nada
além do colorido e iluminado plâncton que saudava a praia como em um poema
visual. Seu pensamento divagava entre comida e a filosofia de sua vida.
- Até
onde eu mereço estar nestas condições? - Perguntava Fiori a si mesmo. - Será
que eu pedi tanto castigo? Ou isso é uma punição pelo que eu fiz? - Fiori se
lembrava de sua vida antes da escolha.
Durante sua transição da infância para a
adolescência, sofreu com as crueldades demoníacas infantis das crianças, seus
apelidos, devido a seu excesso de peso, variavam entre gordo nojento até
tetudo, isso sempre lhe deixava depressivo, passou metade de sua adolescência
isolado, até que conseguiu perder cerca de dez quilos, pois havia
"esticado" como todo adolescente, e então quando achou que teria paz,
ele se deparou com o ataque perverso da acne, sua pele sofria tanto quanto seu
ego. Chegou a arrumar algumas namoradas, mas nenhuma delas gostava de assumir o
relacionamento, elas gostavam dele, não pense o contrário, ele era divertido é
inteligente, mas qual adolescente babaca quer só isso? Todas querem algo para
exibir, lembre-se: todas as babacas!
Fiori caminhou sem esperança, só achava beleza,
mas beleza não se come, não alimenta. Era o contraste da vida pessoal dele,
antes ele ansiava pela beleza, agora era o que ele menos queria. Ao caminhar
mais uns quarenta metros, encontrou uma garrafa, já corroída pela areia, ao
segura-la, ele viu que dentro dela tinha algumas conchas que ao sacudir faziam
barulho, lembrou-se do quanto a música era importante em sua vida, caminhou
mais, só que desta vez, sacudindo a garrafa e ecoando o tilintar pela praia. Fiori
lembrava de quando decidiu ser músico, comprou um violino e tentou aprender
sozinho a tocar, no início sentia como se não fosse aprender, mas logo
conseguiu transmitir seus sentimentos para o instrumento, quem o escutava tocar
sentia uma forte melancolia, era certamente o sentimento mais forte nele.
Chegou a se apresentar em alguns locais, mas nenhum gostava de chama-lo
novamente, afinal de contas, era melancólico de mais, mesmo sem chance de tocar
o instrumento profissionalmente, ele nunca desistiu. As pernas já andavam
automaticamente, o barulho da garrafa rivalizava com o barulho de seus pés
andando na areia úmida e fofa.
Uma bênção divina caiu a sua frente, um pequeno
lago se formou com a maré alta, cercado por rochas pequenas, não mais altas que
a medida dos joelhos de Fiori. Alguns peixes nadavam em cárcere, as rochas que
formavam o pequeno lago deu a Fiori uma forma de se alimentar, o rapaz pegou os
peixes com sua camisa se conduziu para perto da mata que beirava a praia, em
sua mochila sacou uma pederneira e ao juntar algumas madeiras ascendeu o fogo,
ele cozinhou os peixes enquanto lembrava dos dias em que ascendia a lareira do
chalé alugado em Minas Gerais, o calor confortável, munido de comida e conforto,
mas sozinho. Ele havia acabado de terminar um relacionamento, a viagem até o chalé
foi um investimento do casal, mas antes de Fiori descobrir as inúmeras traições
de sua antiga parceira, ou melhor, de sua antiga víbora, como ele agora
pensava.
- O que será que eles estão pensando com meu desaparecimento? - Quem
nunca pensou isso?
Quem nunca tentou desaparecer mentalmente para imaginar oque
os outros pensariam? Fiori não tinha mais os pais para lhe afagar, eles haviam
morrido a alguns anos.
- Nunca fiz mal a ninguém. - Repetia ele. - Onde será
que eu errei? Tudo que eu queria era paz. - O rapaz comeu todos os peixes sem
pressa, a fome era grande, mas ele sabia que tinha todo tempo do mundo.
A fogueira estalava e
então ele se sentiu confortável pela primeira vez em três dias, sentado ele
olhava para o mar que brilhava colorido, graças aos plânctons, o céu tinha as
mesmas características, mas tinha uma enorme lua, que refletia no mar, ele
sorriu pela primeira vez, havia confundido o céu com o mar, achou graça; um vento refrescante
acariciou seu rosto e ao fechar os olhos ele sorriu novamente, agora ele
pensava com o coração.
- Pela primeira vez estou em paz, foi o que
planejei desde o início, cometer esse erro, em busca de paz...
agora me encontro sozinho, mas não tão sozinho quanto já fui, sempre estive
nesta ilha, só não estive presente de corpo, hoje posso sobreviver dela e
não" nela". Sinto que sozinho estou melhor "acompanhado" do
que antes, se ninguém sentir falta de mim, nada mudou, se sentirem, surpreso estou... Hoje eu estou em paz,
com a beleza, com a alma, com o corpo e o coração. Estou sozinho, mas não só.
Eu implorei por isso.- Fiori se sentiu em casa, finalmente em algum lugar que
lhe trouxe um conforto familiar. Ele se levantou e caminhou para dentro da mata
carregando uma tocha, nunca mais foi visto.
A ILHA É UMA ESCOLHA

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