sexta-feira, 11 de setembro de 2015

A ILHA DE FIORI

Durante três dias a ilha estava inquieta, durante três dias ele viu o mar recuar e retornar, foram três dias de inércia. Desde o dia que decidiu se aventurar em meio a uma ilha qualquer, Fiori não imaginava o quanto podia ser assustador ficar sozinho com as estrelas, ao perceber que estava sozinho e perdido, Fiori se desesperou a tal ponto, que entrou em estado de choque, talvez por ele achar que todo seu plano de se isolar na ilha bem fundado. Se sentou de baixo de um coqueiro e ali ficou, apenas se movia para beber suas últimas gotas dágua, sem sentir seu corpo, anestesiado pelo pavor de estar sozinho. 

Em meio a seus pensamentos se encontrava seu ego sepultado pela tragédia de falhar em saber se isolar de todo resto sem sentir-se ameaçado pela natureza de sua escolha. Isso acarretava na falta de força de vontade de sair daquele estado. Sentado, sem vontade de levantar, sem forças para se mover, mas estava na hora de fazer alguma coisa, ele tinha de fazer algo, seu corpo morria enquanto sua mente lutava para reviver de uma morte opcional. 

   Em um lapso de força, ele voltou a ter vontade de viver. Suas pernas se contraíram e em um gemido curto ele se levantou. Já era noite e o mar havia avançado para perto dele, em sua mente ele podia achar alguma coisa de comer na praia, alguma coisa que o mar houvesse regurgitando no avanço da maré, ele começou a procurar a beira-mar, mas nada encontrava, nada além do colorido e iluminado plâncton que saudava a praia como em um poema visual. Seu pensamento divagava entre comida e a filosofia de sua vida. 



- Até onde eu mereço estar nestas condições? - Perguntava Fiori a si mesmo. - Será que eu pedi tanto castigo? Ou isso é uma punição pelo que eu fiz? - Fiori se lembrava de sua vida antes da escolha. 

  Durante sua transição da infância para a adolescência, sofreu com as crueldades demoníacas infantis das crianças, seus apelidos, devido a seu excesso de peso, variavam entre gordo nojento até tetudo, isso sempre lhe deixava depressivo, passou metade de sua adolescência isolado, até que conseguiu perder cerca de dez quilos, pois havia "esticado" como todo adolescente, e então quando achou que teria paz, ele se deparou com o ataque perverso da acne, sua pele sofria tanto quanto seu ego. Chegou a arrumar algumas namoradas, mas nenhuma delas gostava de assumir o relacionamento, elas gostavam dele, não pense o contrário, ele era divertido é inteligente, mas qual adolescente babaca quer só isso? Todas querem algo para exibir, lembre-se: todas as babacas! 
  
  Fiori caminhou sem esperança, só achava beleza, mas beleza não se come, não alimenta. Era o contraste da vida pessoal dele, antes ele ansiava pela beleza, agora era o que ele menos queria. Ao caminhar mais uns quarenta metros, encontrou uma garrafa, já corroída pela areia, ao segura-la, ele viu que dentro dela tinha algumas conchas que ao sacudir faziam barulho, lembrou-se do quanto a música era importante em sua vida, caminhou mais, só que desta vez, sacudindo a garrafa e ecoando o tilintar pela praia. Fiori lembrava de quando decidiu ser músico, comprou um violino e tentou aprender sozinho a tocar, no início sentia como se não fosse aprender, mas logo conseguiu transmitir seus sentimentos para o instrumento, quem o escutava tocar sentia uma forte melancolia, era certamente o sentimento mais forte nele. Chegou a se apresentar em alguns locais, mas nenhum gostava de chama-lo novamente, afinal de contas, era melancólico de mais, mesmo sem chance de tocar o instrumento profissionalmente, ele nunca desistiu. As pernas já andavam automaticamente, o barulho da garrafa rivalizava com o barulho de seus pés andando na areia úmida e fofa. 
  Uma bênção divina caiu a sua frente, um pequeno lago se formou com a maré alta, cercado por rochas pequenas, não mais altas que a medida dos joelhos de Fiori. Alguns peixes nadavam em cárcere, as rochas que formavam o pequeno lago deu a Fiori uma forma de se alimentar, o rapaz pegou os peixes com sua camisa se conduziu para perto da mata que beirava a praia, em sua mochila sacou uma pederneira e ao juntar algumas madeiras ascendeu o fogo, ele cozinhou os peixes enquanto lembrava dos dias em que ascendia a lareira do chalé alugado em Minas Gerais, o calor confortável, munido de comida e conforto, mas sozinho. Ele havia acabado de terminar um relacionamento, a viagem até o chalé foi um investimento do casal, mas antes de Fiori descobrir as inúmeras traições de sua antiga parceira, ou melhor, de sua antiga víbora, como ele agora pensava.

 - O que será que eles estão pensando com meu desaparecimento? - Quem nunca pensou isso? 
  Quem nunca tentou desaparecer mentalmente para imaginar oque os outros pensariam? Fiori não tinha mais os pais para lhe afagar, eles haviam morrido a alguns anos.

 - Nunca fiz mal a ninguém. - Repetia ele. - Onde será que eu errei? Tudo que eu queria era paz. - O rapaz comeu todos os peixes sem pressa, a fome era grande, mas ele sabia que tinha todo tempo do mundo. 

   A fogueira estalava e então ele se sentiu confortável pela primeira vez em três dias, sentado ele olhava para o mar que brilhava colorido, graças aos plânctons, o céu tinha as mesmas características, mas tinha uma enorme lua, que refletia no mar, ele sorriu pela primeira vez, havia confundido o céu com o mar, achou graça; um vento refrescante acariciou seu rosto e ao fechar os olhos ele sorriu novamente, agora ele pensava com o coração.


- Pela primeira vez estou em paz, foi o que planejei desde o início, cometer esse erro, em busca de paz... agora me encontro sozinho, mas não tão sozinho quanto já fui, sempre estive nesta ilha, só não estive presente de corpo, hoje posso sobreviver dela e não" nela". Sinto que sozinho estou melhor "acompanhado" do que antes, se ninguém sentir falta de mim, nada mudou, se sentirem, surpreso estou... Hoje eu estou em paz, com a beleza, com a alma, com o corpo e o coração. Estou sozinho, mas não só. Eu implorei por isso.- Fiori se sentiu em casa, finalmente em algum lugar que lhe trouxe um conforto familiar. Ele se levantou e caminhou para dentro da mata carregando uma tocha, nunca mais foi visto.

A ILHA É UMA ESCOLHA

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