Uma casa única,
feita de pau a pique, no meio do sertão, a quilômetros de distância de outras
casas, com apenas uma arvore com poucas folhas ao fundo, não há mais colheita,
não há mais nada. As palmas (cáquitos) já foram todas consumidas, só restam
pequenos tocos no chão.
Seu Oméro se apoia na cerca e suspira, o vento quente
levanta a areia fina e avermelhada do chão seco a sua frente, ele olha para o
lado e vê um carcará lhe observando.
- Ave da muléstia, me esperando morrer pra cumê meu zói. –
Disse em tom fraco e simples. – Já não basta ter comido dandinha. – Oméro olhou
para uma coleira amarrada na arvore e seus olhos encheram de lágrimas.
A ave se
aproximou andando sobre a cerca e ficou a um palmo de Oméro, ele soltou um
sorriso simples e passou a mão na cabeça da mesma, que fechando os olhos
aproveitou o carinho.
– O que será que Deus quer de mim? Dei tanto murro pra levantar
essas paredes, sempre com ele no coração, agora sofro essa seca. – Ele parou e
falou em voz alta. – Oxi, to ficando doido falando com o carcará. – A ave se
mantinha sob os carinhos de Oméro, olhando o horizonte árido. –Toda minha vida foi dedicada a esse campo, Izaura, minha visinha, nunca tinha o que comer e eu sempre dei metade de minha colheita pra ela, ela se foi com um sorriso no rosto. Angela, minha outra vizinha também precisava de água e do meu poço bebia, ela se foi com um sorriso no rosto, e eu? quando vou sorrir?, eu não mereço descanso? To cansado, to véio, to até doido...To falando com o carcará. – Oméro observou as nuvens se fecharem no céu, rapidamente
a chuva caiu sobre o cerrado e molhou o
chão, quando chegou no velho molhando seu rosto, ele fechou os olhos e sorriu. – É meu
descanso, né? Vai me levar para descansar. – Disse ele olhando para o carcará.
A ave olhou para ele e lhe respondeu. – Sim, Oméro, Hoje você vai descansar. – A Ave pousou sobre o ombro de Oméro e voou pelo sertão, passava
pelo deserto árido, passava por campos verdes, ele ria maravilhado.
Oméro nunca se sentiu
tão bem, as nuvens acariciavam seu rosto, ele chegou até um grande portão, como
sempre havia imaginado, e lá estava uma pequena menininha, quando Oméro a viu
sorriu em prantos. – Dandinha!. – Ele estava
em paz.
No fim restam as lembranças de Dandinha brincando com um
cachorro perto da árvore.
