terça-feira, 29 de setembro de 2015

O que os trovões escondem...

Durante toda a chuva, os raios não paravam, era uma enorme tempestade que iluminava todo o céu, em meio a tantos raios e trovões ensurdecedores, estava o grito de mais uma vítima de si mesma...

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

SUSPIROS NOTURNOS

O latido do cachorro acordava Caio, era seu cachorro, Bruce, que o acordava, pois já estava na hora de levantar, Caio passou a mão na cabeça e em seguida na cabeça de Bruce, se levantou e sentiu o chão gelado, sua calça do pijama estava molhada, na perna e no peito, Caio olhou para Bruce com olhar de reprovação e o repreendeu. 

- Para de me babar, seu bosta. - Seguiu até o banheiro para se preparar para o trabalho. 

Caio era designer gráfico de uma empresa de produtos para cães e gatos, sua função era criar banners e propagandas para venda dos produtos... Caio passava o dia em sua mesa, mas as vezes recebia a visita de sua amiga Jessica, uma morena muito alegre que enchia a cabeça de Caio com ideias, ela se debruçou na mesa de Caio. 


E aí, o que você está projetando? - Perguntou curiosa batendo as unhas na mesa dele. 

- Estou tentando fazer uma roupinha do Batman para o Bruce.. - O nome dado ao cachorro era em homenagem ao personagem dos quadrinhos. 
Aaaahh, que legal. - Dizia ela. A menina olhou para Caio e observou uma mancha em seu pescoço. - A noite foi selvagem, hein. - Soltou uma gargalhada, deu as costas e deixou Caio com a dúvida do que ela se referia. Ao olhar no reflexo da porta retrato de Bruce. Caio se deparou com uma mancha roxa, características de quem havia recebido um beijo sugado no pescoço. 
- Mas que porra é essa? - Pensava o rapaz em voz alta. - Não tenho tido nenhum encontro com ninguém. - Dessas vez ele apenas pensou. Sem dar muita atenção Caio voltou ao trabalho. 


Ao chegar em casa, foi recebido por Bruce com muitos pulos e lambidas, fez carinho no cachorro e largou a mochila no sofá, seu apartamento era um loft, um dos poucos no rio de janeiro, era grande e espaçoso, só tinha divisão no banheiro... Caio deitou-se na cama e chamou Bruce, o cão se deitou na cama com ele, e viram televisão até adormecer, mas antes ele expulsou Bruce da cama, como toda noite. Caio sonhava com Jessica em sua cama, em seu sonho. ela se contorcia sobre ele, virava os olhos e fazia o rapaz suspirar. Quando Caio chegou ao ápice do sonho acordou suspirando, franziu a testa, por desgosto de ter acordado no melhor momento e suspirou, ao se virar de lado se deparou com Jessica deitada a seu lado, mas seu rosto estava deformado, sua boca aberta e língua a mostrar, mutilada, cheia de buracos. Os olhos eram todos brancos, ela gritava ininterruptamente, Caio também gritava, até que acordou no meio da madrugada, ele estava ofegante e suado, o pesadelo lhe trouxe um sentimento de pavor por ter apenas o Bruce por perto, que dormia no chão ao lado da cama, Caio chamou o cão para a cama, na esperança de se sentir “acompanhado” e retornou a dormir. 

No dia seguinte Caio acordou cansado, exausto para ser mais exato, e sua aparência era pálida e com olheiras. 
- Nossa. – Disse ele ao olhar no espelho. – Parece que eu bebi a noite toda. – Com náuseas fortes, Caio colocava as mãos na testa, sua testa estava molhada de suor e ele trazia um mau cheiro, mas não um mau cheiro comum, era algo perto do enxofre. – Que merda de cheiro ruim, preciso de um banho urgente. – Ele se dirigiu ao banheiro e mal notou que estava . Ao entrar no box tomou consciência de sua nudez. – Quando foi que eu tirei a roupa na madrugada? – Ao tentar se lembrar, enquanto ligava o chuveiro, o rapaz sentia uma enorme dor de cabeça, era como se essa tentativa de lembra-se doesse cada vez que ele buscasse mais a fundo. 
Após secar-se, Caio foi até a pia para escovar os dentes, com a cabeça baixada ele se questionava sobre a última noite, mas só se lembrava do pesadelo terrível, ao olhar no espelho, embaçado pela fumaça do chuveiro quente, ele viu uma imagem borrada além de seu rosto, havia alguém atrás dele, uma mulher ruiva e muito branca, mas ao limpar o vidro com a toalha que envolvia seu pescoço, não havia nada. 
- Deve ser mais coisa da minha cabeça. – Disse ele em voz alta. 

Após todo esse estresse, Caio chegou até o trabalho novamente, desta vez ele não conseguia trabalhar, um sono incontrolável tomava conta dele, suas mãos doíam ao digitar qualquer coisa no teclado, era como se tivesse dormido em uma banheira de gelo… Sem perceber, Jessica se aproximou e o chamou a atenção, algumas vezes para ser mais exato, ele mal conseguiu virar o rosto sem sentir dor nos olhos, devido a claridade que entrava na janela do escritório. 

- Está tudo bem Caio? – Perguntou ela em pé ao seu lado. 
- Não sei, to muito cansado, parece que passe a noite bebendo. – Disse ele. 
- Bebendo ou…? – Insinuou ela. 
- Não, nem bebendo, nem transando. – Respondeu ele em tom sério. 
- Então é isso, é falta de sexo. – Ela disse soltando uma gargalhada. – To brincando, amigo. Você precisa de alguém para cuidar de você, você está ficando doente, provavelmente resfriado. – Ela fez uma pausa de alguns segundos. – Hoje eu vou cuidar de você, irei até sua casa, nós vemos um filme e depois você dorme e eu vou embora, combinado? – Disse ela. 
- Claro, sem problemas. – Caio podia estar ficando doente, mas sabia bem aproveitar uma situação dessas; 

A noite chegou e ele escutou a campainha de seu loft tocar, era Jessica com certeza, ele correu para atender, estava todo arrumado, com cabelo penteado e com um cheiro agradável. Abriu a porta e se deparou com Jessica já de pijamas de moletom. 
- A NÃO! – Disse ela exclamando. – Você NÃO vai ficar arrumadinho, pode colocando moletom, vamos ver filme, não jantar a luz de velas. – Ela entrou e se sentou no sofá, Bruce logo veio recebe-la com o rabo abanando. 
Sem dizer nada Caio foi trocar de roupa, voltou já “desarrumado” e sentou-se ao lado dela, o filme já estava pausado na televisão e a pipoca já estava na mão de Jessica. 
- Vamos ver o filme que eu quero. – Disse ela sorrindo. – Porque eu sou a visita. 
Em pouco tempo o filme já estava chato, Jessica já se encostava em Caio e não demorou muito para ambos se entregarem um ao outro, Jessica entrelaçava as pernas em Caio e se entregava ao prazer daquele momento. A verdade é que desde que ela viu aquele chupão no pescoço de Caio, ela não parou de pensar como ele deveria ser na cama. Caio a arrastou até a cama, enxotou Bruce que dormia em sua cama e começaram a arrancar as roupas, Jessica beijava Caio, resolveu dar um chupão no local onde havia a mancha anterior, e ao fazer isso entrou em um frenesi sexual absurdo, ela rasgou a roupa de Caio com uma força sobre-humana, montou sobre ele e cavalgou com experiência, o rapaz mal podia se mexer, a menina estava fora de si, parecia que algo havia possuído o corpo dela. 

Exatamente uma hora depois eles terminaram, ela caiu ao lado dele ofegante, e então eles sorriram, após um banho juntos eles se deitaram novamente, dessa vez cansados… Jessica se deitou abraçada a Caio, que estava virado para a parede onde se encontrava um espelho que refletia a porta do banheiro, Caio já dormia, ao olhar para o espelho, a menina viu o reflexo da mulher ruiva na porta do banheiro, mas ao tentar fixar a visão, a mulher não estava mais lá. Ela pensou ser uma projeção de sua mente e fechou os olhos. 
A madrugada corria e ela se remexia na cama, parecia que algo a incomodava constantemente, ela abriu os olhos e sentiu um calafrio, como se estivesse prestes a ficar doente, se levantou e caminhou até a geladeira de Caio. Abriu a geladeira e pegou uma garrafa de água, colocou água em um copo e segurou com um ar pensativo. A visão da cozinha dava para a cama de Caio, ela olhou fixamente e viu a mulher ruiva com um vestido branco flutuar sobre o corpo de caio, ela babava sobre seu corpo enquanto parecia sugar o ar ao seu redor, o ar se convertia em uma cor azulada e ela engolia aquilo, as mãos da mulher estavam sobre o pênis de Caio e ele dormia profundamente, Jessica deixou o copo cair e soltou um grito, a ruiva olhou para trás e em questão de segundos, como se fosse um golpe de vento, ela voou para cima de Jessica a jogando contra a parede, a menina bateu a cabeça e desmaiou. Caio acordou com o grito e viu Jessica no chão, com a cabeça sangrando, correu para socorre-la, Bruce o ajudava lambendo o rosto da menina, ele ligou para a ambulância e aguardou o resgate. 

Depois que o resgate chegou, juntamente a policia, Caio fez o depoimento e explicou a situação, a politica entende que ela deve ter escorregado, já que havia água pelo chão, e a ambulância a levou desacordada. Caio voltou para o sofá com a mente conturbada, sua cabeça girava tentando entender todo o acontecido, mas era em vão, ele se deitou no sofá e com a mão acariciava Bruce, que estava no chão, lentamente ele pegou no sono. 
Mais algumas horas se passaram e Caio sentiu algo gelado sobre sua mão, eram lambidas. 
- Para Bruce! – Disse ele, mas as lambidas não pararam. – Para cachorro!. – Insistiu, e então parou. Mas um cheiro estranho tomou conta do apartamento, e franzindo a testa Caio abriu os olhos, ao se sentar, colocou os pés no chão e sentiu algo molhado, olhou para baixo e encontrou uma poça de sangue com um rastro até perto de sua cama, ele seguiu o rastro que levaram para baixo de sua cama, ao chegar lá, viu apenas as patas de Bruce para fora, cobertas de sangue, ao olhar para frente viu uma frase escrita na parede. 
“Não são só os cães que sabem lamber” 
 

   
Caio prendeu a respiração por alguns segundos, deu alguns passos para trás, assustado, sem conseguir falar nada, escorregou nos rastros de sangue e caiu de costas no chão, ao olhar para cima viu a ruiva de branco em pé atrás dele, em um lapso de momento ela avançou sobre seu corpo, e mastigou cada centímetro de seu corpo… Naquela noite, nenhum grito foi ouvido, nenhuma batida foi escutada, e jamais foi encontrado nada além do corpo do cachorro.


A ILHA DE FIORI

Durante três dias a ilha estava inquieta, durante três dias ele viu o mar recuar e retornar, foram três dias de inércia. Desde o dia que decidiu se aventurar em meio a uma ilha qualquer, Fiori não imaginava o quanto podia ser assustador ficar sozinho com as estrelas, ao perceber que estava sozinho e perdido, Fiori se desesperou a tal ponto, que entrou em estado de choque, talvez por ele achar que todo seu plano de se isolar na ilha bem fundado. Se sentou de baixo de um coqueiro e ali ficou, apenas se movia para beber suas últimas gotas dágua, sem sentir seu corpo, anestesiado pelo pavor de estar sozinho. 

Em meio a seus pensamentos se encontrava seu ego sepultado pela tragédia de falhar em saber se isolar de todo resto sem sentir-se ameaçado pela natureza de sua escolha. Isso acarretava na falta de força de vontade de sair daquele estado. Sentado, sem vontade de levantar, sem forças para se mover, mas estava na hora de fazer alguma coisa, ele tinha de fazer algo, seu corpo morria enquanto sua mente lutava para reviver de uma morte opcional. 

   Em um lapso de força, ele voltou a ter vontade de viver. Suas pernas se contraíram e em um gemido curto ele se levantou. Já era noite e o mar havia avançado para perto dele, em sua mente ele podia achar alguma coisa de comer na praia, alguma coisa que o mar houvesse regurgitando no avanço da maré, ele começou a procurar a beira-mar, mas nada encontrava, nada além do colorido e iluminado plâncton que saudava a praia como em um poema visual. Seu pensamento divagava entre comida e a filosofia de sua vida. 



- Até onde eu mereço estar nestas condições? - Perguntava Fiori a si mesmo. - Será que eu pedi tanto castigo? Ou isso é uma punição pelo que eu fiz? - Fiori se lembrava de sua vida antes da escolha. 

  Durante sua transição da infância para a adolescência, sofreu com as crueldades demoníacas infantis das crianças, seus apelidos, devido a seu excesso de peso, variavam entre gordo nojento até tetudo, isso sempre lhe deixava depressivo, passou metade de sua adolescência isolado, até que conseguiu perder cerca de dez quilos, pois havia "esticado" como todo adolescente, e então quando achou que teria paz, ele se deparou com o ataque perverso da acne, sua pele sofria tanto quanto seu ego. Chegou a arrumar algumas namoradas, mas nenhuma delas gostava de assumir o relacionamento, elas gostavam dele, não pense o contrário, ele era divertido é inteligente, mas qual adolescente babaca quer só isso? Todas querem algo para exibir, lembre-se: todas as babacas! 
  
  Fiori caminhou sem esperança, só achava beleza, mas beleza não se come, não alimenta. Era o contraste da vida pessoal dele, antes ele ansiava pela beleza, agora era o que ele menos queria. Ao caminhar mais uns quarenta metros, encontrou uma garrafa, já corroída pela areia, ao segura-la, ele viu que dentro dela tinha algumas conchas que ao sacudir faziam barulho, lembrou-se do quanto a música era importante em sua vida, caminhou mais, só que desta vez, sacudindo a garrafa e ecoando o tilintar pela praia. Fiori lembrava de quando decidiu ser músico, comprou um violino e tentou aprender sozinho a tocar, no início sentia como se não fosse aprender, mas logo conseguiu transmitir seus sentimentos para o instrumento, quem o escutava tocar sentia uma forte melancolia, era certamente o sentimento mais forte nele. Chegou a se apresentar em alguns locais, mas nenhum gostava de chama-lo novamente, afinal de contas, era melancólico de mais, mesmo sem chance de tocar o instrumento profissionalmente, ele nunca desistiu. As pernas já andavam automaticamente, o barulho da garrafa rivalizava com o barulho de seus pés andando na areia úmida e fofa. 
  Uma bênção divina caiu a sua frente, um pequeno lago se formou com a maré alta, cercado por rochas pequenas, não mais altas que a medida dos joelhos de Fiori. Alguns peixes nadavam em cárcere, as rochas que formavam o pequeno lago deu a Fiori uma forma de se alimentar, o rapaz pegou os peixes com sua camisa se conduziu para perto da mata que beirava a praia, em sua mochila sacou uma pederneira e ao juntar algumas madeiras ascendeu o fogo, ele cozinhou os peixes enquanto lembrava dos dias em que ascendia a lareira do chalé alugado em Minas Gerais, o calor confortável, munido de comida e conforto, mas sozinho. Ele havia acabado de terminar um relacionamento, a viagem até o chalé foi um investimento do casal, mas antes de Fiori descobrir as inúmeras traições de sua antiga parceira, ou melhor, de sua antiga víbora, como ele agora pensava.

 - O que será que eles estão pensando com meu desaparecimento? - Quem nunca pensou isso? 
  Quem nunca tentou desaparecer mentalmente para imaginar oque os outros pensariam? Fiori não tinha mais os pais para lhe afagar, eles haviam morrido a alguns anos.

 - Nunca fiz mal a ninguém. - Repetia ele. - Onde será que eu errei? Tudo que eu queria era paz. - O rapaz comeu todos os peixes sem pressa, a fome era grande, mas ele sabia que tinha todo tempo do mundo. 

   A fogueira estalava e então ele se sentiu confortável pela primeira vez em três dias, sentado ele olhava para o mar que brilhava colorido, graças aos plânctons, o céu tinha as mesmas características, mas tinha uma enorme lua, que refletia no mar, ele sorriu pela primeira vez, havia confundido o céu com o mar, achou graça; um vento refrescante acariciou seu rosto e ao fechar os olhos ele sorriu novamente, agora ele pensava com o coração.


- Pela primeira vez estou em paz, foi o que planejei desde o início, cometer esse erro, em busca de paz... agora me encontro sozinho, mas não tão sozinho quanto já fui, sempre estive nesta ilha, só não estive presente de corpo, hoje posso sobreviver dela e não" nela". Sinto que sozinho estou melhor "acompanhado" do que antes, se ninguém sentir falta de mim, nada mudou, se sentirem, surpreso estou... Hoje eu estou em paz, com a beleza, com a alma, com o corpo e o coração. Estou sozinho, mas não só. Eu implorei por isso.- Fiori se sentiu em casa, finalmente em algum lugar que lhe trouxe um conforto familiar. Ele se levantou e caminhou para dentro da mata carregando uma tocha, nunca mais foi visto.

A ILHA É UMA ESCOLHA