sexta-feira, 20 de maio de 2016

Carcará



   Uma casa única, feita de pau a pique, no meio do sertão, a quilômetros de distância de outras casas, com apenas uma arvore com poucas folhas ao fundo, não há mais colheita, não há mais nada. As palmas (cáquitos) já foram todas consumidas, só restam pequenos tocos no chão. 
Seu Oméro se apoia na cerca e suspira, o vento quente levanta a areia fina e avermelhada do chão seco a sua frente, ele olha para o lado e vê um carcará lhe observando.

- Ave da muléstia, me esperando morrer pra cumê meu zói. – Disse em tom fraco e simples. – Já não basta ter comido dandinha. – Oméro olhou para uma coleira amarrada na arvore e seus olhos encheram de lágrimas. 

  A ave se aproximou andando sobre a cerca e ficou a um palmo de Oméro, ele soltou um sorriso simples e passou a mão na cabeça da mesma, que fechando os olhos aproveitou o carinho. 

– O que será que Deus quer de mim? Dei tanto murro pra levantar essas paredes, sempre com ele no coração, agora sofro essa seca. – Ele parou e falou em voz alta. – Oxi, to ficando doido falando com o carcará. – A ave se mantinha sob os carinhos de Oméro, olhando o horizonte árido. –Toda minha vida foi dedicada a esse campo, Izaura, minha visinha, nunca tinha o que comer e eu sempre dei metade de minha colheita pra ela, ela se foi com um sorriso no rosto. Angela, minha outra vizinha também precisava de água e do meu poço bebia, ela se foi com um sorriso no rosto, e eu? quando vou sorrir?, eu não mereço descanso?  To cansado, to véio, to até doido...To falando com o carcará. – Oméro observou as nuvens se fecharem no céu, rapidamente a chuva caiu sobre  o cerrado e molhou o chão, quando chegou no velho molhando seu rosto, ele fechou os olhos e sorriu. – É meu descanso, né? Vai me levar para descansar. – Disse ele olhando para o carcará. A ave olhou para ele e lhe respondeu. – Sim, Oméro, Hoje você vai descansar. – A Ave pousou sobre o ombro de Oméro e voou pelo sertão, passava pelo deserto árido, passava por campos verdes, ele ria maravilhado.
   Oméro nunca se sentiu tão bem, as nuvens acariciavam seu rosto, ele chegou até um grande portão, como sempre havia imaginado, e lá estava uma pequena menininha, quando Oméro a viu sorriu em prantos. – Dandinha!.  – Ele estava em paz.


No fim restam as lembranças de Dandinha brincando com um cachorro perto da árvore.

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